Faz hoje 37 anos. Assobia sempre enquanto os braços pintam as paredes da casa. Apesar do corpo imponente salpicado de tinta, não se daria por ele se não fosse isso de pássaro feliz. O silêncio é-lhe maior - a cara séria, as palavras baixas e a custo, enroladas numa fechada pronúncia transmontana que não gosta nada dos 4 anos em Lisboa. Faz hoje 37 anos. Traz o almoço de casa num termo de alumínio que aquece no fogão ao meio dia e trinta. Traz os pratos e os talheres. Traz uma garrafa de vidro onde todos os dias de manhã despeja o meio litro de vinho tinto. Almoça em silêncio e guarda tudo depois na mochila de pano impermeável azul. Deixa-a sempre em cima da mesa da cozinha, encostada à janela. Pinta as paredes da casa e assobia profundamente ( como ele: presente, invisível ). Pára várias vezes para fumar à janela calado, bebe cervejas geladas e solta as caricas das garrafas sem precisar de nada. Tem uma força descomunal. Tem uns olhos tristes e doces, parecidos com a forma lenta e perfeita com que dobra os panos coloridos que traz para proteger o chão. Chama-se sr. Zé. Faz hoje 37 anos. Perguntei-lhe pelo bolo. Disse-me que não gosta de doçuras.
Não dizia palavras, Aproximava apenas um corpo interrogante, Porque ignorava que o desejo é uma pergunta Cuja resposta não existe, Uma folha cujo ramo não existe, Um mundo cujo céu não existe.
Entre os ossos a angústia abre caminho, Ergue-se pelas veias Até abrir na pele Jorros de sonho Feitos carne interrogando as núvens.
Um contacto ao passar, Um fugidio olhar no meio das sombras, Bastam para que o corpo se abra em dois, Ávido de receber em si mesmo Outro corpo que sonhe; Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne, Iguais em figura, iguais em amor, iguais em desejo. Embora seja só uma esperança, Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.
Às vezes, as palavras impedem-nos de de dizer o que queremos.
img.( trabalhada ) Selda Soganci
julho 10, 2006
ouvi-a muitas vezes... e tenho a certeza que em todas fiquei sempre mais aflita do que eles na floresta e na casa da bruxa, apesar dos doces ... ( é que éramos sempre nós, eu e tu, Caia. ) O meu medo irresístivel, o meu desafio: Hansel e Gretel.
Al cabo, son muy pocas las palabras que de verdad nos duelen, y muy pocas las que consiguen alegrar el alma. Y son también muy pocas las personas que mueven nuestro corazón, y menos aún las que lo mueven mucho tiempo. Al cabo, son poquísimas las cosas que de verdad importan en la vida: poder querer a alguien, que nos quieran y no morir después que nuestros hijos.
"Someone said that from the moment you have an inner life, you are already leading a double life." Isabel Coixet sobre La vida secreta de las palabras, imperdível!
toque, cheiro lavado a amêndoas doces, sabor novo de devorar e silêncio... a linguagem secreta em(tre) nós, medida pelo batimento das ondas em alto mar.
Josef ¿Me estaba mirando, Hanna? Hanna No. Josef Yo creo que sí… Veo que empieza a mentirme. Eso quiere decir que empiezo a gustarle… ----------------------------------------------- Josef No. You have a blondes' voice... it's like butter and cinnamon.
Nem berbequim, nem Black & Decker: furaquim! Assim designam esta ferramenta os vizinhos da minha amiga Fátima, num pequeno monte alentejano, perto de Mértola.
Curso de silêncio... ( curso em/sobre silêncio? percurso que corre em silêncio?) Consta que é um diálogo entre dois amantes: Amigo e Amiga - curso de silêncio 2004, assim é o título do último livro de Mª Gabriela Llansol. Acabo de o conhecer. Ainda apenas através da notícia no jornal de ontem, mas a pré-leitura - aquela que é da ordem do instinto por lembrança e por expectativa que me acontece com os "meus escritores" - foi imediata. Quero agora preencher com a carne das palavras deste novo livro, o que lhe adivinho no esquiço que fiz pelo reconhecimento da fala desta escritora: os fragmentos, as palavras inteiras, os fios tecidos sem dizer, a clara hibridez, a sensualidade da alma com a terra depois: corpo. A escrita de G. Llansol é única e alimenta-me.