
As crianças nascem com uma coragem que perdem.
As mães provocam-nas em si com uma coragem de carne.
E os homens levam-nas consigo sem as conhecer.
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder


E muita gente sabe o que me interessam as sucessivas versões dos contos tradicionais. Esta é uma óptima escolha da Caminho para os seus catálogos. Um conjunto de 8 histórias clássicas contadas pelas imagens e palavras da experiente Lucy Cousin nos públicos mais pequeninos.




"Não têm o mesmo cheiro por todo o corpo, se bem que todo o corpo cheire bem. Por exemplo, os pés têm o cheiro de uma pedra macia e quente ou de manteiga fresca... E o corpo cheira a panquecas que tenham sido ensopadas em leite. E as cabeças, no cocuruto e na nuca, onde o cabelo forma um remoinho... é aqui que eles têm o cheiro mais agradável de todos. Cheira a caramelo. A partir da altura em que se cheirou essa região do corpo deles, é impossível não os amar, quer sejam nossos filhos ou filhos de outras pessoas."





