fevereiro 12, 2006

fevereiro 10, 2006

a vida secreta das palavras


Ainda não vi o filme e tão depressa não quero saber muito do seu enredo para poder continuar a guardar, livre, esta frase. Aliás, os títulos de Isabel Coixet falam-me como um texto completo. Deve ser por isso que também não vi A Minha Vida Sem Mim ( para além do poético, dá-me o título que eu não tinha para alguns dos meus dias que são exactamente assim!).
Longe do corpo-filme a que pertence, guardo a frase "a vida secreta das palavras" como um dos temas que trago destes dias na Galiza... as palavras ditas, as palavras olhar, as palavras-imagens sem palavras, só as palavras como corpo real, palavras-clic, palavras silêncio, as mesmas palavras com outra música, as palavras que escondem, palavras inventadas, as palavras que se adivinham, as palavras na ponta dos dedos...
Engraçado como se tecem leves tecidos de sentido a partir de situações absolutamente díspares, concretas, pragmáticas. Por isso gosto de títulos.
E juro, foi apenas quando tinha já titulado este post e me levantei entretanto para buscar uma chávena de chá, que me dei realmente conta do exacto título deste livro, no cimo da pilha de vários outros livros que trouxe comigo:


Escolhi-o à pressa numa livraria a um minuto de fechar - não hesitei pelo tema, por ser da Media Vaca e um objecto total muito interessante ( a um preço muito convidativo ). Funciona isoladamente mas liga-se também a uma exposição que esteve na Coruña.

"Hay libros que tenemos a nuestro lado veinte años sin leerlos, libros de los que no nos alejamos, que llevamos de una ciudad a otra, de un país a otro, cuidadosamente empaquetados, aunque haya muy poco sitio, y que tal vez hojeamos en el momento de sacarlos de la maleta, sin embargo, nos guardamos muy bien de leer aunque sólo sea una frase completa..." ( e parei. Bastou para que o fechasse e levasse... reconheço-me )

La Vida Secreta de Las Palabras + La Vida Secreta de Los Libros... falo de tecidos e encontros parecidos com este.

fevereiro 09, 2006

pablo amargo













Quando fala de si, Pablo Amargo é muito parecido com os seus trabalhos gráficos: preciso, económico, claro e profundo. É um perfeccionista muito lúcido.
É um privilégio reencontrá-lo, desta vez com tempo a sério para deixar correr a conversa.
O Pablo orienta um curso sobre ilustraçao ( e nao de ilustraçao ) estes dias por aqui. Hoje, como estou livre a essa hora pedi-lhe para assistir. Pela pertinência, actualidade e rigor do que espreitei ontem na sua sala de trabalho, ainda por cima sobre um tema que me é tao caro e que é raro ver tradado assim, tenho a impressao que lamentarei muito os outros dois dias e o amanha em que nao pude/poderei estar.
ps. continuo sem tils, mas neste outro computador já consigo mais ou menos fazer parágrafos :)

fevereiro 08, 2006

ponte

Estou em Pontevedra. Ontem, alguém me iria buscar a Porto-Campanha ( já descobri que aqui nao vou ter tils senao para o ñ, que nao me interessa e também nao consigo fazer parágrafos, o que dará um texto engraçado, todo corrido). Lá estava o Carlos, membro da Organizacao do VII Salón do Libro Infantil e Xuvenil, apaixonado como todos os galegos que conheço por Portugal. E há muito desse amor no som destas duas línguas... Sinto o galego e português como um casal - marido e mulher - de tempos antigos. Intimidade. Ouço diferente o português falado pelos brasileiros, um depois aberto: filho. Na hora de caminho até aqui, o Carlos contava-me muitas coisas e os horrores da mae - nascida, criada e sempre vivida em Vila Boa, uma terra muito pequenina - às grandes cidades: "Precisa de muita segurança, da sua casinha... Se uma luz, uma lampara se rompe na casa, para ela é como se uma estrela, o sol ou a lua se rompessem", disse, abrandando o carro e apontado para o céu escuro. Dicionário básico: nai - mae neno/nena - menino/menina bico - beijo ( e é por isso que uma amiga daqui, o que mais desejava ver, na primeira vez que fosse a Lisboa, era a Casa dos Bicos, imaginando histórias magnifícas de amores impossíveis à beira do Tejo. Pois.... Aquela fria casa de pedra ... desiludida, só ao fim de meia-hora alguém lhe explicou. )

fevereiro 07, 2006

lembras-te, Caia?




Fotografei-a para ti no outro dia, numa feira de velharias na Praça de Londres...
Imagina, numa feira de velharias!
( Pois, deve ser... faz sentido... usei o telemóvel para guardar a imagem. No tempo da Heidi os telemoveis só existiam nas séries de ficção científica da televisão, tipo espaço 1999, e esses nem sequer tiravam fotografias :)
E, se reparares na cara da menina estampada na tampa da caixa de costura, se calhar também a reconheces... lembras-te daquele tear que tínhamos? Devia ser da mesma colecção.
Só que, o mais absolutamente incrível do tempo e da memória que os objectos guardam de/em nós, é que consigo sentir como se fosse agora a textura do vestido daquelas bonecas, diferente da camisola mais macia, e me lembro do cheiro bom da pele de borracha que eu adorava.
Lembro-me de ti... lembro-me de nós ( também duas ).

fevereiro 06, 2006

tread softly



Para o Pedro que hoje, ao sol, me lembrou ( sem se lembrar
muito bem ) de Yeats e que amanhã parte,
levado pelo o ar de todos os pássaros...
( vai ser muito bom! )

E este era o poema. É um dos mais conhecidos e repetidos e...
mas arrepia-me sempre que o leio ou, melhor, quando o ouço na voz.

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Tivesse eu as bordadas vestes dos céus
tecidas com a luz do ouro e da prata
o azul e o sombrio e os negros trajes
da noite e a luz e a média luz
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés.
Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés.
Pisa suavemente, porque caminhas sobre os meus sonhos.

foto: ParkeHarrisson

fevereiro 05, 2006

flying ( back )


... e, extraordináriamente, este voo que nasce do fundo das minhas memórias de mim, encontrei-o ontem, no fundo da terra...
Lembro-me de acreditar que era verdade... aquele voar era mesmo possível porque aquelas pessoas eram de "carne e osso" e viviam vidas de pessoas a sério; não era um mundo exclusivo de seres diferentes, à parte, um mundo de fadas só fadas... Percebo agora que dai se desenhou a base da minha noção de magia literária e narrativa: o irreal partirá do real concreto e vice-versa, numa relação fluída que se interpenetra constantemente. Se pensar bem, os contos tradicionais/maravilhosos são também assim.
Lembro-me também do guarda-chuva e da vassoura despida do limpa-chaminé, dos telhados em vez de chão, da mala e do armário com portas a abrir e a fechar tresloucadamente, lembro-me da ordem que não era o inverso do rodopio que faz realmente voar.
Lembro-me muito do pedacinho de filme em fita castanha numa bobine de enrolar ( incluía só as primeiras cenas ) que o meu pai comprou e que projectávamos em dias felizes na parede da sala; umas vezes o som não disparava e inventávamos o texto que sabíamos de cor, à espera que a voz da Julie Andrews finalmente soasse. E porque era em inglês sem legendas, para mim era ainda mais "mágico" ( e por isso mais real! ).
Eu queria ser a Mary Poppins, lembro-me de acreditar...
Guardei esta imagem ontem from the underground on the London Subway . Está desfocada de propósito ;)

fevereiro 01, 2006

fragile wings



voo nas asas do vento...
as asas que me trazem aqui ...
e me suspendem ( por tudo o resto )

para mim, esta noite


Ashes and Snow

janeiro 29, 2006

surreal and breathtaking


" did you go out and catch snowflakes on yr tongue?
did you make some photos?
was it surreal and breathtaking?

i'm so happy you saw snow... "
( a comment on Flipsplace )

E, para que possa nevar todos os dias em Lisboa: http://snowflakes.lookandfeel.com/

à manhã






O texto que o Teatro Meridional moldou para o palco do S. Luís foi escrito por José Luís Peixoto. Soa sempre a Alentejo: na música das palavras faladas, nos gestos lentos dos corpos, no vazio cheio de calor. Soa a tempo, a fim e ao recomeço possível antes do fim, guiado pela frase "a gente tem-se uns aos outros e mais nada...". Rimo-nos muito, com doçura (o que gratamente me surpreendeu em J.L.Peixoto). Há uma mulher que enlouqueceu e pede bocanços. Depois percebemos ou que estamos também todos loucos, ou que o calor que o corpo pede é natural como acontece com "as galinhas, os coelhos, os cães e os outros bichos todos". E que esse calor só acontece no aconchego de outro.
À MANHÃ - de 19 Janeiro a 5 Fevereiro, às 21h00 domingos às 17h30 texto original de José Luis Peixoto encenação Natália Luíza e Miguel Seabra Com Carla Galvão, Carla Maciel, Paula Diogo, Pedro Diogo e Romeu Costa

janeiro 28, 2006

viola tricolor


Enquanto o dr Juvenal, excelente médico de medicina tradicional chinesa, me receitava o tratamento para a garganta que ameaça inflamar, eu encantava-me com o que ele ia dizendo, concentrado e sem ligar nenhuma às minhas exclamações acerca da poesia das palavras:
- Alcaçuz, alteia, salva... e viola tricolor, 6 gramas para baixar o calor.
- Viola tricolor - nesta não me contive e repeti mais alto o que ele acabava de dizer.
Sem levantar os olhos do papel onde escrevia, sem dar mostras do contágio poético prestes a acontecer, disse:
- Viola tricolor... também se chama Amor Perfeito Bravo.
Se calhar sou apenas eu a desejar ver contaminações de poesia, mas não me importo, a verdade é que este sinónimo foi científicamente proferido.
Só lhe acrescentei mais uma pergunta:
- Como poderá alguma vez Amor Perfeito Bravo baixar o calor?

janeiro 27, 2006

"on the road"























É mesmo verdade.
Recebi esta imagem da Carla Pott, aqui, na biblioteca de Portalegre, de onde escrevo este post.
Gostei da coincidência do título que a Carla lhe deu sem me saber "on the road" e, mais ainda, gostei das linhas, do inusitado desenho de página e das cores, tudo a convergir para um misto ambiente de cheio e de vazio nesta ilustração. O movimento fora, num sol pleno por dentro da personagem.

Para espreitar mais trabalhos da Carla, minha querida companheira de ESCREVER PARA O BONECO, o blog NSEW e uma gaveta especial com o nome dela.

janeiro 24, 2006

palavras que não merecem o destino que têm


















Hoje lembrei-me daquilo que a Alice Vieira um dia me contou.
Ela e a filha costumavam fazer listas de palavras: palavras salgadas, palavras bicudas, palavras gordas... e palavras que não merecem o destino que têm, a sua categoria preferida. Falou-me da palavra guilhotina, bela, e por isso desgraçadamente, amarrada a um destino tão malvado.
De hoje guardei duas palavras que me encantaram e que uso muito pouco: fugidio ( melhor ainda porque a li associada à palavra beijo ) e, por isso me lembrei da Alice, a palavra malfadada. Soa-me tanto a aconchego que não me conformo com o destino a que serve.
il. de Laura Testasecca

andar a ler


Este saco é de papel. Foi feito na máquina de costura da Margarida a partir das provas que sobraram da impressão do seu livro. Foi plastificado manualmente por ela e, contrariamente ao que pensei quando o vi, asseguro agora que é resistente.
É uma excelente ideia para inspirar outros papéis e outros objectos.
As páginas que calharam no outro lado deste saco têm mais texto. Divirto-me muito quando saio com ele e vejo as pessoas a tentarem, disfarçadamente, ler a história e perceber as ilustrações.
Gostei muito desta prenda, uma entre as mil e uma artes da Margarida.

janeiro 22, 2006

sweet old stories


"- So I take it from your response Madam, that your answer is yes?
- Yes, yes, a thousand times yes!"


Jane austen's Pride and Prejudice
e papel de embrulhar biscoitos de uma mercearia antiga em Lisboa ( fotografado pelo meu tmv )

janeiro 21, 2006

"photographing fairies"






Para a Sarocas e o seu gosto científico encantado pelas
moléculas que viu no movimento deste colar.

( e eu, encantada pela magia da câmara escura e do fotograma )

janeiro 19, 2006

como ilustrar um bocejo (para uma editora especial)


Elena Odriozola e a subtileza deste bocejo-nuvem.
A OQO nasceu em Pontevedra. Em apenas alguns meses de existência, esta editora galega tem já cerca de 12 livros publicados. Se se percebe cuidado na selecção de textos - muitos são adaptações de contos tradicionais, mas há também histórias de autor -, a atenção dada à ilustração e ao cuidado gráfico são excepcionais. O site está aqui . Mais notícias ( boas... :) em breve.

janeiro 18, 2006

pele


Era verão neste papel quando guardei esta imagem no meu tmv.
Era verão também na minha pele.
Passaram-se alguns meses. Mudámos ambos sob este tempo.
Os cartazes que estão colados directamente nas paredes quase ao nível do solo param-me.
Acho que é por causa da escala: o tamanho quase igual ao meu, às vezes maior...
Ou porque são uma pele a envelhecer muito depressa: vê-se nas rugas, nos rasgões, nas bolhas de ar, uma organicidade de ser vivo que me aproxima. Isto vs assépticas perfeições digitais, distantes, protegidas por vidros, sem relevos nem geografia natural.
Facilmente se adivinham aqui os gestos de quem os colou... e há sempre mais do que um cartaz muito juntos. Fico algum tempo perceber o efeito de repetição, as identidades apesar da imagem impressa ser a mesma... Apetece tanto (e posso!) tocar. E logo me nascem inteiros, das palmas das mãos - não da ponta dos dedos - os movimentos sobre esta pele de papel, como quem lentamente alisa a roupa a uma cama para aconchegar.
São peças de museus perecíveis e efémeras, misturadas com ( e como ) a vida real.
Há algum tempo que não encontro nenhum que me arrebate tanto ao ponto de o conservar artificialmente num objecto digital. Toquei-lhe antes... tocou-me... tento guardar isso para além desta bela imagem.
O que será feito desta mulher de papel hoje, já Janeiro?

janeiro 17, 2006

Esta noite preciso de azul



A ilustração da Keri Smith para me refazer
de um dia inesperadamente "rollercoaster".